sexta-feira, 20 de março de 2015

o dia em que tive medo de olhar para o Sol.

Escreve-se com minúscula "sol" quando nos referimos à luz e ao calor dele. O astro, a estrela, é "Sol". Minudências de revisores de texto.

A coisa deve estar a começar. Era para ser agora, portanto deve estar a ser mesmo-mesmo. O sol inunda a minha secretária, onde trabalho. Sabe bem ter o sol a aquecer-me a sala nestas manhãs ainda frias.

Não tive tempo de comprar óculos. Não sou louca para arriscar-me a estragar os olhos. Há quem tenha perdido tudo por muito menos.

Depois contem-me como foi o eclipse.

terça-feira, 17 de março de 2015

o especialista.

Arranja-me um substituto de ti. És uma pessoa difícil, mas percebe-me. Há pouco mais que precise do que a serenidade das pessoas simples: o guru que convida para um café, o Papa que liga à miúda doente à hora do jantar, o companheiro que lê enquanto ela passeia abraçada a um amigo, o campeão olímpico que sorri e se deixa fotografar e fala como se não estivesse há duas horas a sorrir, a fotografar e a falar.

Gosto de pessoas simples. Mesmo. Mas não posso viver sem ti. Liguei e o senhor doutor não está. Fiquei em pânico de desapareceres. Como assim não está? Não desapareces nunca, está bem? Por favor, arranja uma maneira. Criaste uma cápsula que te protege e um discurso que só as tuas assistentes percebem bem. Quando se te embarga a voz defendes-te, mostras o mais complicado que há em ti. Pois, eu preciso da serenidade das pessoas simples, mas também preciso de ti. O senhor doutor não está, mas tens de estar. És demasiado importante, entendes? Não morras, por favor, sem me mostrares o caminho que sabes que direção toma. Não morras sem me mostrares a cura, sem me dizeres o que fazer. O que fazer? Meu deus, o que faço agora que não estás?

Hoje, a minha amiga explicava-me que precisava de levar a miúda ao médico porque não gostava do cheiro daquele nariz. Depois, pediu desculpa, mas não sabia explicar melhor: não gostava daquele cheiro. E eu disse-lhe: “Não te preocupes, que te percebo. Não sei se já reparaste, mas tenho dois filhos.”

Dois filhos.

De repente encheu-se-me o coração com uma alegria imensa. E senti lágrimas na barriga, percebes? Desculpa, não sei explicar melhor. Senti lágrimas na barriga. Eu tenho dois filhos.

Não morras, por favor. Preciso da serenidade das coisas simples. E da complexidade do que tens para nos dar.

segunda-feira, 16 de março de 2015

quarta-feira, 11 de março de 2015

a dança.

A Terra não gasta 365 dias dar a volta ao Sol. Deixa-me fechar a janela; não se ouve nada com os pássaros. Já volto.

São 365 dias e seis horas até à meta. É uma corrida, é uma verdadeira maratona aquilo que a Terra faz a andar à volta do Sol a rodopiar sobre si mesma. Uma dança. E demora 365 dias e seis horas com aquela dança. Este quarto de dia é acumulado ao longo de quatro anos e, ao fim destes, há o 29 de fevereiro.

Agora imaginemos que um astrónomo em Alexandria nunca se tinha lembrado disto. Melhor: imaginemos que alguém se tinha lembrado disto – “Olhem, eu acho que a cada quatro anos devíamos ter mais um dia em fevereiro” – e, pimbas!, o senhor tinha sido queimado na fogueira.
Ou imaginemos que, apesar de as investigações científicas mostrarem que 365 dias não eram o suficiente para completar uma volta, nada se fazia e se encarava o retrocesso das estações como uma inevitabilidade, e ao longo dos milénios o Natal tanto poderia ser quente como frio.
Imaginemos que, em vez de se acrescentar um dia a fevereiro, se aceitava que as estações do ano são algo que muda e que começa cada vez mais cedo. E que depois dão a volta. Assim como as alterações climáticas, mas de uma forma mais organizada, como um relógio com pouca pilha.
Ou imaginemos, imaginemos só, que os dias deixavam de ter 24 horas, e o nosso tempo de sono, e o tempo que passamos acordados num dia, e o tempo que temos para trabalhar, e em que namoramos e rimos e choramos, passavam a ser não 24 horas, mas 24 horas e uns pós. E então a Terra chegava à meta no exato fim do 365.º dia.

Haveria pássaros? Imaginemos, estamos só a imaginar: haveria trinados de piu-pius ao acordar? Haveria coaxos a saltar do rio quando passo? Haveria a brisa fresca que já dispensa o casaco? Haveria flores a despontar e a manchar o chão que piso? A sério, imaginemos: haveria primavera?

Sim, Mas quando?

segunda-feira, 9 de março de 2015

coisas que não me saem da cabeça.

My yesterdays are disappearing, and my tomorrows are uncertain, so what do I live for? I live for each day. I live in the moment. Some tomorrow soon, I’ll forget that I stood before you and gave this speech. But just because I’ll forget it some tomorrow, doesn’t mean that I did not live every second of it today. I will forget today, but that doesn’t mean that today did not matter.

I am no longer asked to lecture about language at universities and psychology conferences all over the world. But here I am before you today, giving what I hope is the most influential talk of my life. And I have Alzheimer’s disease. Thank you.

Alice Howland/Lisa Genova (Still Alice)